Os estoques de sangue da Fundação Hemocentro de Brasília atingiram níveis críticos, especialmente para os tipos B positivo e AB negativo, segundo alerta divulgado pela entidade. A queda nas doações é preocupante e reflete uma realidade que afeta não apenas esses dois grupos sanguíneos mais escassos, mas também outros tipos como O positivo, O negativo, B negativo, A positivo e A negativo, que apresentam níveis abaixo do esperado. Apenas o tipo AB positivo está em nível regular no momento.
Um exemplo de como a doação de sangue salva vidas é a história de Elvis Magalhães, morador do Guará II, que enfrentou uma vida inteira de desafios devido à anemia falciforme. Desde os primeiros dias de vida, ele dependia de transfusões regulares para sobreviver. “Eu fazia transfusão de troca a cada 30 dias. Retirava cerca de duas bolsas de sangue e recebia outras três. Foi isso que me manteve vivo”, relata o aposentado. Sua situação só mudou ao completar 38 anos, quando realizou um transplante de medula óssea. Para ele, a doação de sangue significa muito mais que um gesto: “É um ato de amor. Ajuda pessoas com doenças genéticas, vítimas de acidente, pacientes em cirurgia... Qualquer pessoa pode precisar.”
A situação dos estoques em Brasília é alarmante. Conforme explica Lara Lisboa, assistente social da Gerência de Captação de Doadores da Fundação Hemocentro, o número de doações realizadas nos primeiros três meses deste ano foi de 13.832 — menor que as 14.065 coletas no mesmo período do ano passado. Entre os fatores que podem ter contribuído para a queda estão os feriados prolongados, que incentivaram viagens, e o aumento de casos de síndromes respiratórias, que dificultam as doações. Apesar disso, a demanda por transfusões segue alta: no mesmo trimestre, 19.848 procedimentos foram registrados na rede hospitalar atendida pelo Hemocentro.
Diante da emergência, o Hemocentro decidiu adotar medidas excepcionais para captar doações, como a liberação de senhas preferenciais para os tipos B positivo e AB negativo até 8 de maio, sem necessidade de agendamento prévio. Contudo, a colaboração dos doadores de todos os grupos sanguíneos também é fundamental. Segundo Lara Lisboa, “a meta diária é alcançar 180 doações, mas atualmente estamos com uma média em torno de 100.” Cada bolsa coletada tem o potencial de salvar até quatro vidas, já que o sangue é fracionado em componentes como hemácias, plasma, plaquetas e crioprecipitado. Parte desses itens pode ser armazenada por mais tempo, e o excedente de plasma é destinado à Hemobrás para fabricação de medicamentos usados no SUS.
A continuidade desse fluxo depende diretamente da solidariedade da população. Para ser um doador, é preciso atender a alguns critérios: ter entre 16 e 69 anos (com autorização no caso de menores de idade), pesar pelo menos 51 kg, estar saudável e apresentar um documento oficial com foto. O Hemocentro localiza-se no Setor Médico Hospitalar Norte e funciona de segunda a sábado, das 7h15 às 18h. Agendamentos podem ser feitos pelo site Agenda DF – Serviço de Agendamentos do Distrito Federal ou pelo telefone 160 (opção 2). Informações adicionais podem ser obtidas via WhatsApp pelo número (61) 99136-2495.
Histórias como a de Isaias Pereira mostram como o ato de doar sangue tem impactos reais na vida das pessoas. Ele começou a doar aos 18 anos incentivado por um professor e logo compreendeu a importância desse gesto: “Quando você vê uma bolsa com cerca de 450 ml saindo do seu corpo, entende que aquilo pode garantir que outra pessoa continue vivendo.” Após ser diagnosticado com insuficiência cardíaca e ter que interromper suas doações, Isaias encontrou uma nova maneira de contribuir com a causa: tornou-se multiplicador, organizando campanhas que desmistificam tabus relacionados à doação e incentivam outras pessoas a participarem.
Essa mobilização coletiva se torna ainda mais urgente diante do atual cenário. Doar sangue significa proporcionar esperança e salvar vidas — uma demanda que não pode esperar.
Da redação do Portal de Notícias Lei e Política, por Carlindo Medeiros Jornalista
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